Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Aos 20 anos, Abcic move a construção industrializada no Brasil

Em 2001, foi criada a Abcic (Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto). Com 20 anos completados em outubro de 2021, a organização é responsável por mudar paradigmas no setor da construção civil. Ao trazer para o país modelos de controles de qualidade praticados pela fib (International Federation for Structural Concrete) a associação chancelou a tecnologia de pré-fabricados e pré-moldados de concreto, e concedeu credibilidade aos sistemas construtivos com essas características. 

Na entrevista a seguir, a engenheira civil Íria Doniak, presidente-executiva da Abcic, relata os avanços obtidos pela associação e os desafios que o setor terá que superar para se aproximar de números que já são realidade em países do hemisfério norte. Desde a criação da Abcic, a participação da pré-fabricação de concreto no mercado da construção civil nacional praticamente dobrou. Confira: 

A Abcic acaba de completar 20 anos. Quais paradigmas foram rompidos com o surgimento da associação? 
A criação da Abcic mostrou a união do setor e a iniciativa das indústrias de pré-fabricação de concreto para colocar em discussão as pautas mais importantes para o desenvolvimento do sistema construtivo que ela representa no país, como a padronização, a qualidade e a ética. Desse modo, a Abcic marcou uma nova trajetória para a construção industrializada de concreto no Brasil, porque a entidade passou a atuar em todos os contextos que viabilizam o desenvolvimento global da cadeia produtiva, desde os aspectos técnicos e de tecnologia, passando por ações internacionais, institucionais, governamentais e políticas, até questões de grande relevância para a construção civil, como competitividade e produtividade. 

Logo que foi fundada, quais foram as primeiras ações da Abcic?
As primeiras ações estabelecidas estavam ligadas ao aspecto da qualidade e padronização. A primeira ação desenvolvida foi o Selo de Excelência Abcic, cujo início da implementação nas empresas ocorreu em 2003. O programa atesta as empresas quanto à qualidade, segurança e meio ambiente, incluindo, além das plantas de produção, os canteiros de obras. Em paralelo, a Abcic propôs à ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) a revisão da principal norma do setor no país: a ABNT NBR 9062 – Projeto e Execução de Estruturas de Concreto Pré-Moldado, cuja publicação ocorreu em 2006. Tal ação foi fundamental, pois a revisão anterior datava de 1985 e, para termos parâmetros a serem inseridos no selo, eles deveriam estar alinhados com a normalização internacional e com os novos métodos de produção, bem como a interface com a ABNT NBR 6118, relacionada aos projetos de estruturas de concreto. 

A Abcic também aproximou o setor brasileiro da construção industrializada do concreto de organismos internacionais, correto?
Começamos a atuar na fib (International Federation for Structural Concrete), junto à comissão de pré-fabricação que reúne experts de todo o mundo, o que acelerou a pesquisa aplicada no Brasil e auxiliou sobremaneira o desenvolvimento da nossa normalização. Através do NETPRÉ (Núcleo de Estudos e Tecnologia da Pré-fabricação) – outra ação importante do setor -, em convênio com a UFSCar e a liderança do professor Marcelo Araújo Ferreira, estudos e pesquisas de cisalhamento e compressão de lajes alveolares e ligações em escala real foram desenvolvidos e apresentados fora do Brasil, o que possibilitou o debate e o aperfeiçoamento das propostas de normalização. 

Como surgiu a ideia de criar o Prêmio Obra do Ano em Pré-Fabricados de Concreto, que completa 10 anos?
Nosso trabalho para desmistificar a crença de que a construção industrializada do concreto tolhia a liberdade criativa do arquiteto resultou na criação do prêmio, através de um trabalho em conjunto com o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). Inicialmente, surgiu como um prêmio para estimular estudantes de arquitetura. Posteriormente, passou a abranger profissionais. Um de seus fundamentos é promover a sinergia entre a execução das obras, a arquitetura e os projetos de estruturas.       

Nesses 20 anos, é possível estimar o quanto a construção industrializada de concreto evoluiu no Brasil? 
Duas lições importantes foram aprendidas nestes 20 anos. A primeira, pensar globalmente e agir localmente. A segunda, construir “pontes”, pois ninguém faz nada sozinho. A integração dos elos da cadeia produtiva permitiu galgar cada vez mais o número de pavimentos em edifícios comerciais e residenciais, com soluções integralmente pré-fabricadas ou combinadas. Hoje, estamos presentes em diversos segmentos de forma expressiva. Não somente nos tradicionais, como indústrias, varejo, centros de distribuição e logística, hoteleiro, mas também nas áreas de educação, hospitalar, edifícios-garagem, infraestrutura – aeroportuária, rodoviária e portuária -, mobilidade urbana (BRTs e estações de metrô), estádios, edifícios comerciais e residenciais. Enfim, uma infinidade de aplicações. Os eventos esportivos que o Brasil sediou em 2007 (Jogos Pan-americanos), 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Olimpíadas) deixaram um legado importante para a construção industrializada do concreto. Criou-se um movimento “pró-industrialização” importante no país. Creio que, se considerarmos o percentual sobre o total de estruturas, fachadas e fundações produzidas nestes 20 anos, quase dobramos a participação da pré-fabricação no mercado, indo de 4 a 5% para 8 a 10%. É apenas uma estimativa, pois não existe ainda um dado confiável do share dos sistemas construtivos. Mas isso ainda é um índice muito baixo, se compararmos especialmente com a Europa, que varia de 30% a 90%, sendo que os índices mais altos são alcançados nos países nórdicos, além de Holanda e Bélgica. 

E quais são as barreiras que ainda precisam ser superadas?
Ao longo deste período trabalhamos muito para vencer desafios ligados às barreiras que ainda impedem o avanço da industrialização na construção civil, como a tributação e os modelos de financiamento e licitações. São áreas em que temos militado, mas ainda temos muito a fazer. Este é um outro trabalho forte da Abcic, e muito extenso.  

Antes do surgimento da Abcic, como era a construção industrializada de concreto no Brasil? 
As obras pré-moldadas começaram a aparecer com maior frequência ao final da década de 1950, destacando-se a obra industrial do Curtume Franco Brasileiro, em Barueri-SP, que utilizou concreto pré-moldado em canteiro na execução dos pavilhões da fábrica. Outro importante marco foi em 1962, em que foram utilizadas placas pré-moldadas e vigas pré-moldadas protendidas nos prédios de escritórios e almoxarifados do setor norte do campus da Universidade de Brasília (UnB), projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Nos anos 1970, com o início do chamado “Milagre Brasileiro”, o Brasil era considerado como o país do futuro, e o investimento em tecnologia promoveu a ampliação das possibilidades de aplicações do concreto pré-moldado. No início dos anos 1980, a pré-fabricação começou a ter maior visibilidade na execução de obras industriais e especialmente em obras de empresas multinacionais. Nos anos 1990, as grandes redes de hipermercados aderiram à construção industrializada. O sistema avançou para a construção de shopping centers e centros de distribuição e logística. O fato da Abcic ter especialmente organizado a questão da padronização e normalização, consideradas a base de desenvolvimento sustentável de um setor, possibilitou um grande apoio para os projetistas e para a indústria da construção, formando uma base importante para o desenvolvimento tecnológico e o avanço do nosso segmento. 

Quais as metas e desafios da Abcic para os próximos anos? 
As metas da Abcic estão ligadas sempre ao desenvolvimento sustentável do setor. Por isso, superar os desafios contribui para alcançarmos esse objetivo. Nesse sentido, o principal deles continua a ser a disparidade tributária existente entre os sistemas produzidos em fábrica, chamados de industrializados, e a construção nos métodos convencionais ou racionalizados, executados no próprio canteiro de obras. Também vamos continuar nosso trabalho de disseminação dos benefícios da industrialização durante todo o ciclo de vida do empreendimento, ou seja, mostrando que é preciso mudar a mentalidade de custo por m2 pela visão integral do ciclo de vida. Essa disseminação também passa pelo estímulo a uma melhor capacitação da mão de obra intelectual e revisão dos currículos das escolas de engenharia e arquitetura. Entendemos que é necessário promover uma revisão geral nos métodos de formação dos profissionais. Outro ponto é o estímulo ao emprego cada vez maior de novas tecnologias, seja nos materiais, nos processos de produção, em equipamentos, na digitalização e nas ferramentas da indústria 4.0, que possuem total sinergia com a industrialização. Além disso, defendemos o uso cada vez maior do BIM, em suas variadas dimensões. Também existe a expectativa de que outros aspectos tecnológicos nos trarão mais competitividade, como a adoção do UHPC (Ultra High Performance Concrete) e da impressão 3D.

Por fim, a Abcic está confiante no Brasil. Quais projeções a associação faz para o setor em 2022? 
A expectativa é que nosso setor acompanhe a esperada retomada na área da construção. Contudo, isso ainda vai depender de alguns pontos, como o retorno dos investimentos nacionais e internacionais, a capacidade do governo lidar com a economia em geral, e, é claro, avançar com o programa de vacinação e sanar a pandemia. Antes da crise sanitária e da crise econômica anterior, a industrialização vinha crescendo de forma bastante acelerada, por todos os benefícios que oferece, incluindo mais qualidade, produtividade, segurança, sustentabilidade, otimização de custos, menor tempo de construção, entre outros. Esses são os motivos pelos quais há um movimento pela industrialização na construção civil.

Matéria publicada no Massa Cinzenta