Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Boletim da Construção – abril de 2026

Com a continuidade das indefinições sobre a duração da Guerra do Irã, março ficou marcado pelas dificuldades de prever o real dimensionamento dos impactos do conflito. Os entraves à circulação do petróleo extraído da região do Oriente Médio elevaram os preços do óleo bruto e de seus derivados em todo o mundo, gerando um “choque energético”. Como consequência, já se começa a presenciar a aceleração da inflação global, com efeitos sobre o crescimento mundial e a taxa de juros da maior parte das nações. Nesse cenário, a duração do conflito se coloca como elemento-chave da propagação de seus impactos ao longo dos próximos meses e anos. Mesmo que seja encerrado em breve, a desorganização das cadeias produtivas implicará um tempo significativo de recuperação da produção e circulação mundial de petróleo. Esse cenário adverso tem levado diversos países a acelerarem a busca por alternativas ao petróleo do Oriente Médio, por meio da criação de medidas compensatórias, porém, de efetividade ainda dúbia.

No Brasil, os primeiros impactos já começam a ser sentidos. Entre os diretos, a elevação do preço dos combustíveis, e, especialmente, do diesel, tem sido temporariamente amenizada por políticas específicas, porém com efeito apenas parcial. O resultado é uma tendência a um progressivo aumento geral dos custos de produção. Também é esperado um efeito negativo sobre o custo dos fertilizantes nitrogenados, o que, no entanto, só deve ser mais sentido após meados do ano, por conta de a maior parte do agronegócio estar em período de entressafra. Ao mesmo tempo, a elevação da cotação global do petróleo favorece as exportações nacionais, potencializando o controle cambial (pela entrada de dólares) e o aumento da arrecadação dos governos federais e estaduais. Já os efeitos indiretos incluem um aumento geral dos preços, que, no curto prazo, pode gerar paralisação ou redução do corte de juros, com impactos sobre o crescimento no médio e no longo prazo. Esse movimento tende a ser fortalecido pela influência de um cenário externo de menor atividade econômica.

Para o setor da construção, a guerra também tem efeitos diversos. Entre os mais diretos está o aumento dos combustíveis, especialmente do diesel, criando pressão nos custos do setor e da cadeia para as atividades com maior dependência de custos de frete (como a de agregados) e em maquinários de alto consumo. Esse impacto será maior nos insumos provenientes de derivados do petróleo (como o asfalto, os plásticos e polímeros e as tintas, vernizes e revestimentos). Haverá uma pressão sobre custos de obras e margens, especialmente para o setor de infraestrutura. Já os efeitos indiretos devem se concentrar na paralisação ou redução do ritmo do corte de juros, em conjunto de uma desaceleração geral da economia, com a elevação do preço das obras também impactando a demanda.

Medidas compensatórias ou de estímulo podem auxiliar o setor nesse período, porém com resultados de mais difícil previsão. Entre elas, as mudanças no Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) aprovadas pelo Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em março. Houve a atualização dos limites de renda e aumento dos tetos de imóveis, da seguinte forma:

• Faixa 1: R$ 2.850 para R$ 3.200 de renda (aumento de 12,3%)

• Faixa 2: R$ 4.700 para R$ 5.000 de renda (aumento de 6,4%)

• Faixa 3: R$ 8.600 para R$ 9.600 de renda (aumento de 11,6%); teto do imóvel de R$ 350 mil para R$ 400 mil (aumento de 14,3%)

• Faixa 4: R$ 12.000 para R$ 13.000 de renda (aumento de 8,3%); teto do imóvel de R$ 500 mil para R$ 600 mil (aumento de 20%)

Enquanto isso, o setor da construção continua a demonstrar sinais de arrefecimento da atividade, especialmente no lado mais informal, com o formal aparentando maior resiliência. Exemplo disso é o emprego formal, que em fevereiro voltou ao patamar dos 3 milhões de trabalhadores no Brasil, após crescer 1% no mês e 3% no período de um ano. O estado de São Paulo apresentou resultado semelhante, com crescimento de 1% no mês e de 2,4% no período de um ano. Paralelamente, a expectativa do nível de atividade se manteve basicamente estável em escala nacional, ainda em nível de confiança, mas próximo da estabilidade.

Sinal desse arrefecimento, após apresentar crescimento nos últimos meses, o consumo aparente de cimento, com expansão de 2,9% no período de um ano (acumulado em doze meses), passou a apresentar estabilidade com viés negativo (-0,3%) em fevereiro. Já o consumo de aço longo manteve a trajetória de queda observada desde julho de 2025, com uma redução de 1% no mês, ampliando uma queda de 3,1% no período de um ano.

O investimento do governo central manteve um cenário menos benéfico para a construção. Apesar do investimento total ter crescido 0,6% em fevereiro (acumulado em doze meses), a abertura para obras e instalações voltou a apresentar queda, com redução de 0,9%. No período de um ano essa diferença é marcante, com os investimentos totais crescendo 8,8% e as obras caindo 2,1%.

Os dados de lançamentos e vendas, de divulgação mais defasada, apontam um cenário mais positivo, especialmente no caso do MCMV. No total, após apresentar forte crescimento nos últimos meses, com lançamentos crescendo 29,8% no período de um ano e as vendas 3,1% (acumulado em doze meses), os lançamentos tiveram queda de 1% em dezembro, enquanto as vendas apresentam expansão de 1%. Já a abertura apenas para o caso do MCMV aponta para novos recordes, tanto dos lançamentos, quanto das vendas, desde o início da série histórica iniciada em 2016. Os lançamentos tiveram estabilidade com viés positivo (+0,4%), com expansão de 38,5% no período de um ano, enquanto as vendas apresentaram aumento maior no mês, de 2,8%, crescendo 12,1% no período de um ano.

Nas operações contratadas com recursos do FGTS, em fevereiro (acumulado em doze meses) houve um crescimento total de 1,2%, sendo ligeiramente maior para os imóveis usados (+1,3%) do que para os novos (+1,1%). Esses últimos apresentaram crescimento de quase 20% no período de um ano. Paralelamente, as operações contratadas com recursos da poupança continuam a ser impactadas pelos juros elevados, tendo queda de 0,6% em fevereiro, já apresentando retração de quase 20% no período de um ano.

Após acelerar de forma constante ao longo dos últimos meses, em fevereiro o IGMI-R (+0,9%), que estima o preço dos imóveis, teve desaceleração em relação ao INCC-DI (+0,3%), relativo aos custos da construção. Apesar disso, no período de doze meses os preços (+19,7%) ainda cresceram em ritmo superior aos custos (+5,7%). A abertura dos custos da construção aponta estabilidade da mão de obra (+9,9%) após forte aceleração nos meses anteriores, também com manutenção do custo de materiais (+4,4%). Isso se traduziu em uma manutenção do custo total (+6,7%) em relação ao mês anterior, acompanhando o arrefecimento do IPCA (+3,8%).

Os seguintes pontos de atenção devem ser acompanhados:

• Consequências dos conflitos geopolíticos em curso, com enfoque na Guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã, com possíveis efeitos direitos e indiretos sobre o setor, como aumento dos custos dos combustíveis e de materiais, e diminuição do consumo das famílias. Em especial, os impactos do aumento do preço do diesel precisam ser acompanhados de perto;
• Profundidade dos efeitos defasados e do início de ciclo de cortes da taxa de juros, além dos impactos da Guerra sobre sua evolução;
• Evolução do desempenho da construção após as novas medidas de estímulo do governo federal (novo modelo de financiamento imobiliário, programa Reforma Casa Brasil e alterações no MCMV) e o ciclo eleitoral;
• Evolução do FGTS no médio e longo prazo, com destaque para os efeitos do Saque-Aniversário após as mudanças em vigor desde o início de novembro de 2025 e do programa Crédito do Trabalhador;
• Comportamento dos custos do setor e da dificuldade de contratação de mão de obra, que continua a ser o principal componente a pressionar a inflação da construção, além da possibilidade de aceleração de custos de materiais nos próximos meses, por consequência do choque de preços do petróleo;
• Consequências das medidas protecionistas e políticas do governo dos Estados Unidos, especialmente aquelas voltadas ao Brasil.

Boletim publicado no Observatório da Construção/FIESP
 

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