Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Pré-fabricados de concreto tem um novo protagonista: o dormente

O Senado prorrogou a validade da medida provisória que autoriza o repasse de trechos ferroviários para a iniciativa privada, sem a necessidade de licitação. A MP 1065/2021 venceu em 29 de outubro, mas seguirá ativa até que o marco legal ferroviário seja aprovado no Congresso Nacional e vá para a sanção da Presidência da República. 

A medida abre espaço para que o capital privado assuma as operações das estradas de ferro no Brasil, desde que invista em obras, planos de expansão e na manutenção dos trechos outorgados. A expectativa é que até 2030 a privatização possa acrescentar pelo menos mais 10 mil quilômetros à malha ferroviária nacional, que atualmente abrange 29.165 quilômetros. Confirmada essa previsão, um elemento de concreto tende a ter alta demanda nos próximos anos: o dormente.  

Apesar de existirem dormentes de aço, madeira e polímeros reciclados, os fabricados com concreto são os mais usados nas ferrovias nacionais. A razão, explica o engenheiro civil Tharlles José Fernandes – especialista em projetar esses elementos pré-fabricados -, é que os dormentes de concreto dão mais estabilidade à via, têm vida útil de 50 anos e excelente custo-benefício por causa da baixa manutenção.  

Porém, para transferir às ferrovias todas as ótimas propriedades, os dormentes de concreto precisam ser fabricados com qualidade. A referência normativa neste caso é a ABNT NBR 11709:2015 (Dormente de concreto – Projeto, materiais e componentes). “O dormente deve ser compatível com as exigências do projeto, ou seja, cada ferrovia requer um tipo de dormente”, resume Tharlles.  

Por isso, diz o engenheiro, recomenda-se que as peças sejam produzidas em indústrias de pré-fabricados de concreto e não “in loco”. O processo de produção controlada permite que a fabricação tenha controle de qualidade, que se divide em 3 etapas: planejamento, teste e refinamento e produção em série. A 1ª etapa envolve projeto estrutural, ensaio dos insumos e a adoção de procedimentos na fase de execução. A 2ª etapa possibilita otimizar o layout de produção e ajustar os elementos às necessidades da ferrovia em que serão instalados. Por fim, a produção em série deve ser executada com controle tecnológico. 

Traço do concreto e tempo de cura são definidores para que dormente não desenvolva etringita tardia 
Esse controle na fabricação dos dormentes evita que os elementos desenvolvam etringita tardia, considerada uma patologia capaz de inutilizar as peças usadas nas ferrovias. Tharlles José Fernandes alerta ainda para outros cuidados na fabricação de dormentes. “Os elementos devem estar adequados às cargas que irão trafegar na ferrovia. O traçado e a bitola da linha também influenciam na produção das peças. Eles ainda devem ser projetados para atender os raios das curvas e a velocidade de tráfego das locomotivas”, explica. 

Por isso, complementa o engenheiro civil, o traço do concreto e o tempo de cura são definidores para a qualidade do dormente. Outra informação é que a maioria das novas ferrovias do Brasil utiliza dormentes fabricados com concreto protendido. Em média, um quilômetro de estrada de ferro é sustentado por 1.600 elementos de concreto. 

Desde a publicação da MP 1065/2021, em agosto, 19 solicitações de pedidos de novas ferrovias já foram encaminhadas à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Isso equivale ao acréscimo de mais 5 mil quilômetros à malha ferroviária nacional até 2025. Significa que pelo menos 8 milhões de dormentes deverão ser fabricados para suprir a demanda do setor.

Matéria publicada no Massa Cinzenta